
Um baú que a gente mantém empoeirado em algum canto da casa. Fechado, de preferência, para que de lá não saltem as lembranças que exaustivamente tentamos transformar em esquecimento. Fica recostado no tempo, à espera de um sumiço espontâneo que nunca acontece. É onde guardamos o que passou, mas que por algum motivo não se foi de todo. Resquícios de uma parte da nossa história que se arrasta pelos dias. Pequenos retalhos que foram se costurando à trama da vida, sem que notássemos. Destroços de nós mesmos, do que fomos, do que já não sabemos ser. Um baú triste de sabor amargo e de uma aspereza que nos fere silenciosamente. Basta que se abra uma fresta, que um minúsculo raio de sol aqueça o ar de dentro... Pronto, a gente se depara com a necessidade urgente de desfazer os laços com os dias de ontem que ainda nos amarram. É preciso mudar os móveis de lugar, colocar o lixo todo na rua. Mas o baú pesa demais. Impossível tirá-lo dali com a força dos nossos braços, tão cansados. É preciso que venha alguém forte. Alguém que não desista se, ao puxá-lo, der de cara com uma surpresa desagradável. Alguém que tenha coragem de remexer com a gente nos estilhaços dolorosos de algo que se quebrou há tempos. Alguém que aceite, mesmo sem entender, que o passado ainda nos machuca. Ainda que isso não faça qualquer sentido...
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