sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O amor em Si

Chega um momento em que aprendemos a nos enxergar com olhos menos exigentes, não tão severos, nem tão críticos. É o momento em que descobrimos, do lado de dentro, todas as maravilhas que temos; estas que antes adormeciam na nossa ignorância e na estranha incompreensão de nós mesmos.

Chega um momento em que já podemos fazer as pazes com nossos inimigos internos, aqueles que ninguém vê (nem mesmo nós), mas que nos infernizam por décadas. Chega um momento em que nos sentimos mais fortes, mais inteiros, mais parecidos com o que gostaríamos de ser. Somos capazes de jogar fora o ‘modelo’ que criamos um dia e no qual ficamos boa parte da vida tentando nos encaixar.

Chega um momento em que afrouxamos as cobranças e, naturalmente, os momentos de felicidade tornam-se mais reais.

Chega um momento em que experimentamos o amor de uma maneira total e incondicional, e o melhor de tudo: não precisamos de ninguém para receber ou nos dar esse sentimento, porque ele brota de nós, ali se aninha e aprende a morar.

Chega um momento em que tudo que vivemos no passado serve de bagagem para os próximos dias, mas nossos ombros já não sofrem com aquele peso insuportável; porque nos permitimos carregar apenas o que importa. A mochila segue cheia de recordações, aprendizados e experiência, enquanto as mazelas, as mágoas e as dores - que nos pareciam incuráveis - vão se esparramando pelo caminho feito poeira que o tempo depois dá conta de fazer desaparecer.

Chega um momento em que nos permitimos cometer erros, já sabendo que não serão os mesmos que anteriormente nos derrubaram. Nossa maturidade nos ajuda a ver com maior clareza as situações todas e começa a ser mais simples desfazer os nós que antes certamente nos paralisariam. Chega um momento em que tudo é silêncio, tudo é paz, tudo é um correr de dias, ora felizes, ora nem tanto, mas driblamos com maior traquejo os imprevistos e não nos abatemos por qualquer coisa.

Chega um momento em que o corpo é outro. Talvez mais magro, talvez mais musculoso, talvez diferente do que queríamos, tanto faz. De fato o corpo acaba sendo a resposta que temos para nossas escolhas, assim como todo o resto de nós. Chega um momento em que a cabeça também é outra, porque fizemos muito para isso acontecer e a recompensa finalmente chegou. Temos novas certezas, novas formas de ver as coisas, novos sonhos, novas ambições. Somos os mesmos, sem ser. A essência não se perde, mas nosso melhor se reconstrói. O pior de nós se transforma em algo que podemos aceitar com mais leveza, sabendo que não nos cabe a perfeição e, melhor então nem buscar por ela.

Chega um momento em que reconhecemos facilmente quem são as pessoas que merecem nosso esforço, nossa dedicação, nosso precioso tempo; seja para um passeio, para um café, para um telefonema ou e-mail.

Chega um momento em que Deus parece estar realmente caminhando ao nosso lado, carregando o lado mais pesado da caixa, protegendo-nos da chuva e dos trovões, cuidando para que nossos passos continuem sendo dados na estrada certa.

Chega um momento em que as perguntas se calam e nos interessamos mais em viver as respostas. Porque já é tempo de valorizar a vida, ser feliz e escrever como se deve a nossa história. Mesmo sabendo que isso nos custa sangrar, cair, levantar e começar tudo outra vez.

Chega um momento em que não há nada mais a dizer, tudo que queremos é abrir os braços, deixar o rosto ser acariciado pelo vento e quem sabe, uma lágrima escorrer sem qualquer vergonha.

Chega um momento. Chega sim. E pra mim chegou!



"Quem se apaixona por si mesmo não tem rivais."

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