E ela esperou, esperou, esperou.
Até dar-se conta da ausência precoce daquele que ela não queria correr, jamais, o risco de perder. Tarde demais. Ele já lhe dera as costas e seguira seu caminho; o velho caminho. A ela restou amargar um fim sem despedidas, tal qual temia que pudesse um dia vir a acontecer. Assistiu o resvalar de seus sonhos e preferiu fazer daquele desencontro uma celebração. Enfeitou sua alma com flores, aspirou o perfume silvestre de seus desenganos e partiu em tiras o lânguido acreditar de sua intuição. Sabia-se naufragada naquele vai-e-vem de recordações que não mais lhe cabiam no toque de seus dedos. Viu-se diante do irremediável, do indefinível, do transbordar de lágrimas invisíveis - aquelas que não se é preciso chorar para saber que existem. Insistiu em tornar ardências aquele momento gélido. Fez de si mesma a protagonista daquela dor que lhe raptava os sentidos. Numa cadência suave, ouviu o ressoar de palavras confusas, risadas em baixos decibéis. Era um timbre conhecido, dileto, inequívoco. Era o som longínquo da voz dele, que sua memória optou por não deixar esvaecer, em tempo algum... Incrédula de suas próprias razões e exausta de perecer sobre as desilusões de uma vida inteira, entregou-se à embriaguez de seu raciocínio, cerrou os olhos marejados e pôs-se a dormir. Mas ainda assim, esperava...
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